Gyopos: Coreanos que regressam do exterior trazem progresso ao país

Para muitos coreanos, passar um período no exterior ajuda o crescimento pessoal e profissional. Essa migração também tem uma grande influência na sociedade coreana, uma vez que muitos dos migrantes voltam para a Coreia do Sul depois de décadas no exterior.

Quando os migrantes da primeira geração deixaram o país, eles não poderiam ter previsto o impacto que seu regresso teria sobre o seu país de origem, influenciando a cultura, estilo de vida e práticas de negócios. Os coreanos étnicos que vivem no exterior (conhecidos como gyopo), os viajantes e os estudantes também têm ajudado a abrir a Coreia do Sul para o mundo, mudando a natureza anteriormente monogâmica do estilo de vida e da cultura coreana.

O jornal Korea Herald reuniu depoimentos de alguns destes gyopos que retornaram para sua terra natal e trouxeram alguma experiência única para a Coreia do Sul.

Uma casa na Vila Americana in Namhae, Província de Gyeongsang do Sul. Foto: Chung Dae-wha
Uma casa na Vila Americana in Namhae, Província de Gyeongsang do Sul. Foto: Chung DaeWha

Chung DaeWha: Residente da Namhae American Village

A vila foi projetada para ser o último lugar de assentamento para coreanos-americanos que sonham em retornar e se aposentar em sua terra natal“, disse Chung DaeWha, um ex-funcionário da ONU e agora morador da American Vilagge, em Namhae County. Por mais de 25 anos, Namhae County foi o berço da German Village. A ideia era trazer enfermeiras e mineiros coreanos que haviam migrado para a Alemanha em 1960 e 70 de volta para casa, para a aposentadoria. Hoje, a aldeia alemã é acompanhada de uma aldeia americana, que adiciona um toque ocidental à paisagem.

A vila foi criada em 2007, com intenções semelhantes aos da German Village. Para aqueles que, como Chung, vissem a aldeia como um lugar perfeito para se voltar. “Eu fiquei sabendo deste lugar (American Village) por um amigo. Eu nasci cerca de meia hora de distância daqui. Na época, eu estava na Universidade de Jeju e estava prestes a construir uma casa lá. Então eu fiquei sabendo deste lugar perto da minha terra natal, o lugar onde nasci“, disse Chung.  Ele deixou a Coreia do Sul há 50 anos, após receber uma bolsa de estudos para uma universidade nos Estados Unidos. Para ele, Namhae é um lugar para onde ele pode vir na aposentadoria e, melhor ainda, fazer uma casa muito parecida as que ele viveu na América. “Namhae é um lugar intocado sem qualquer poluição, sem quaisquer indústrias. Minha casa está à beira-mar. Eu amo o ar, e Namhae é o lugar que tem mais sol na Coreia, a luz do sol como na América“, disse Chung. A residência de Chung é a maior das 22 casas exclusivas em Namhae. Ele explica que as casas são todas concebidas para aparecer casas do subúrbio norte-americano, a pedido da Administração do local.

Chung está feliz por estar em casa. Mesmo que os restaurantes e supermercados de estilo americano ainda não tenham sido construídos na área, a vila permite que uma parte do seu estilo de vida ocidental fique com ele.

O interior do restaurant Suji‘s Deli and Restaurant em Itaewon, Seul. Foto: Suji’s Deli and Restaurant
O interior do restaurante Suji‘s Deli and Restaurant em Itaewon, Seul. Foto: Suji’s Deli and Restaurant

Suji Park: Suji‘s Deli and Restaurant

Para pessoas como Suji Park, estudar no exterior foi uma oportunidade de experimentar muitas coisas novas, inclusive a cozinha ocidental. Suji se mudou para os EUA aos 19 anos e se apaixonou pelos brunches ao estilo de Nova Iorque. Quando ela voltou para Seul, notou que o  brunch ocidental era um nicho de mercado intocado. A partir daí, ela começou a desenvolver um conceito que iria mudar a cena dos jantares coreanos. “Eu, meus irmãos e meus amigos fomos, em sua maioria, educados nos Estados Unidos. Nós estávamos familiarizados com a comida e a cultura americana. Naquela época, não havia nenhum restaurante estilo americano ou de brunch no estilo de Nova Iorque. Fomos o primeiro restaurante a trazer o conceito bem ao estilo de Nova Iorque para a Coreia “, disse Suji.

Em 2005, Suji abriu o Suji‘s Deli and Restaurant, em Itaewon, onde permanece até hoje. Depois, ela transformou seu conceito de restaurante em uma marca internacional, levando a culinária ocidental para as casas e os mercados coreanos e asiáticos em geral. Ela foi a pioneira neste campo. O restaurante é popular entre os expatriados, bem como moradores locais, agora com um menu especial que oferece pratos que são uma fusão das duas cozinhas. Mas a ideia original era trazer aos expatriados os alimentos dos quais eles sentiam falta. “É como eu me sentia quando ia aos restaurantes coreanos em Korea Town, em Nova York. Isso me fazia sentir muito em casa e ajudou com a saudade. Eu penso que nós estamos fazendo o mesmo para um monte de expatriados aqui“, disse Suji.

Hoje, Suji vende produtos ocidentais e asiáticos, incluindo refeições prontas para residências no Japão, Coreia do Sul e EUA e espera expandir a integração da comida ocidental para o mercado asiático, colocando sua marca em Taiwan e na China, nos próximos anos.

A artista Sunny Kim. Foto: Arquivo Pessoal
A artista Sunny Kim. Foto: Arquivo Pessoal

Sunny Kim: Sunkuku Nail Art Studio

Em um pequeno porão em Hapjeong fica Sunny Kim – técnica em unhas, artista e, como ela mesmo se define, “nail creator“. Sunny é uma dos milhares, na indústria de unhas artísticas na Coreia do Sul, uma indústria de higiene pessoal em expansão, desde o retorno dos migrantes da primeira geração. Originalmente, uma ocupação bem paga e facilmente obtida pelos imigrantes coreanos nos EUA, a indústria das unhas na Coreia é hoje muito séria. A Coreia do Sul hospeda a Copa Global de Unhas Artísticas todos os anos, e as academias de arte em unhas são um negócio florescente em toda a península.

Os coreanos têm muito boas habilidades com as mãos“, disse Sunny. Nascida em Hongseong, Chungcheong do Sul, Sunny mudou-se para Nova Iorque para estudar, na esperança de se tornar uma técnica de unhas altamente qualificada. Ela sabia que os coreanos dominavam a indústria das unhas nos EUA. “Especialmente o East Side – Nova Iorque e em Nova Jersey, os coreanos possuíam muitas lojas de unhas artísticas. Naquele tempo, em 2001, quase 90% das lojas de unhas artísticas pertenciam a coreanos“, disse Sunny. Por mais de uma década, ela trabalhou em salões como artista de unhas e especialista em cera, atendendo a clientes a cada hora. Sunny voltou a Coreia do Sul com esperança de começar seu próprio salão, incorporando as habilidades que tinha aprendido na América.

Foi muito trabalho. Comecei aos 18 anos de idade. O estilo americano era muito chato, era apenas francesinha ou de uma cor. Mesmo quando eu trabalhava na New York Fashion Week, não era arte, apenas cores“, disse ela.
Sunny desenvolve suas próprias cores e estilos e se permite gastar duas horas em apenas uma cliente. Incorporando influências americanas, coreanas e também japonesas, o seu negócio é único, mesmo para a indústria coreana de unhas. Seu sucesso, ela acredita, vem de uma compreensão das diferentes técnicas de unhas e estilos que os clientes estrangeiros e locais desejam. “Os norte-americanos, querem um estilo forte, mas natural. Essa é uma técnica que exige alta qualidade. Eu domino esse estilo. Já na Coreia, não se usa muito unhas postiças. Normalmente os coreanos têm unhas fortes mas eles gostam de unhas muito curtas. Eu conheço ambos os estilos, portanto posso fazer o que o cliente quiser”, disse Sunny com confiança.

Embora a indústria da unha seja grande, ela observa que muitos coreanos que recebem qualificações não entendem a importância da prática, um pré-requisito para o sucesso nos EUA. “Se você quer algo muito diferente em estilo geralmente os técnicos aqui na Coreia dizem que não sabem fazer, que não conhecem este ou aquele estilo ou que não tem o produto necessário”. Ela observou que muitas lojas coreanas de unhas fecharam as portas logo após a abertura, não durando nem um ano. “Você tem que ser profissional. Tem que praticar, tem que estudar. Na América, eles dizem que somente após cinco anos ou mais é que você pode se considerar um profissional. Essa é a diferença”, disse Sunny.

Da esquerda para a direita: Kenny Park, Sid Kim e Juewon Jonathan Kim, co-fundadores do Vatos Urban Tacos em Itaewon, Seul. Foto: Vatos Urban Tacos
Da esquerda para a direita: Kenny Park, Sid Kim e Juewon Jonathan Kim, co-fundadores do Vatos Urban Tacos em Itaewon, Seul. Foto: Vatos Urban Tacos

Juweon Jonathan Kim: Vatos Urban Tacos

Do que mais sentimos falta quando temos saudades de casa? Comida caseira!“, disse Juewon Jonathan Kim, co-fundador do popular restaurante coreano-mexicano Vatos Urban Tacos, refletindo sobre sua infância. Tendo se mudado para os EUA aos 8 anos, Juweon, e os colegas Sid Kim e Kenny Park foram criados como filhos de pais imigrantes, uma educação que seria a chave para o seu sucesso. O trio começou o Vatos Urban Tacos depois de uma campanha iniciada por Kenny, em 2011. A ideia dele era um estabelecer um food-truck de comida mexicana nas ruas de Seul. Quando os três homens voltaram para a Coreia, já adultos, cada um por suas próprias razões, eles sentiram que alguma coisa estava faltando. Eles compartilhavam o amor pela culinária coreana-mexicana, mas não havia lugar na Coreia que espelhasse o gosto da comida que comiam enquanto estavam crescendo.

A gente abria a geladeira e via os restos da noite anterior, do jantar da mãe“, explicou Juweon. “Tinha kimchi e vários outros pratos coreanos. Mas ao invés de ir fazer arroz e uma sopa pra combinar, a gente pegava as tortillas para comer junto“. Na esperança de introduzir estes sabores únicos na Coreia do Sul, os três homens estabeleceram um restaurante que faz sucesso entre os habitantes locais e expatriados e, recentemente, em Cingapura. Juweon acredita que o negócio tem sido um sucesso por causa da profunda compreensão que cada um tem de ambos os alimentos, coreanos e mexicanos. “Sabemos o que boa comida mexicana tem gosto, na Califórnia e no Texas. E temos o bom paladar para a comida coreana porque crescemos comendo esta comida em casa. Estamos muito familiarizados e intimamente ligados à cultura alimentar de ambos os países“. Juweon acredita que a indústria de alimentos e bebidas pode ser o motor essencial do intercâmbio cultural coreano-americano.

E a tendência é não apenas em alimentos, mas também na forma como as empresas são geridas. O Vatos opera com horas de trabalho reduzidas em sua sede, bem como oportunidades de trabalho mais flexíveis. “Acho que os gyopo, os expatriados e os coreanos que estudaram no exterior, serão os motores que realmente impulsionarão a Coreia do Sul como nação para o próximo nível“, disse Juweon. “Eles são conectores culturais“, disse ele. “Eles têm desempenhado um papel essencial, e irão desempenhar um papel maior, por isso é muito empolgante estar em um país tão dinâmico onde se está começando a ver essas pessoas assumirem posições de liderança, para realmente empurrar o país para frente, cada vez mais.”

Fonte: Korea Herald
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