[ESPECIAL #SIGDIVERSIDADE] O longo caminho do racismo no cotidiano coreano

Propaganda do cigarro "This Africa" numa loja de conveniências em Seul. Reprodução ( JUNG YEON-JE/AFP/Getty Images)
Propaganda do cigarro “This Africa” numa loja de conveniência em Seul. Reprodução ( JUNG YEON-JE/AFP/Getty Images)
Dia 20/11 é comemorado o Dia Nacional da Consciência Negra, como uma reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Dentro do Especial “Amor À Diversidade”, questões sobre o preconceito racial e a xenofobia na Coreia do Sul são abordadas, traçando um paralelo entre a rara miscigenação local e a ausência de políticas de proteção à diversidade racial no país da Onda Hallyu

Em um metrô, em Seul, uma senhora de meia idade se aproxima de Beauty Epps e diz: “Africa!”. Epps, uma jovem afro-americana, responde com calma: “Americana. Migukin”, mas a senhora coreana insiste, “Não. Africa!” e após uma pausa, continua:

“Nós domesticamos vocês.”

Em Gunpo, na província de GyeonggiAshanti Lee, um jovem afro-americano foi contratado para substituir um professor de jardim de infância. Ele conversa com o responsável por telefone e tudo parece estar certo, mas quando aparece no serviço, o dono da escola gagueja e diz: “Oh, não, não”. Lee pergunta porque não e o dono da escola logo responde:

“Negro feio. Branco ok.”

 

Muitos estrangeiros concordam que, mesmo tendo experiências geralmente positivas, o racismo e a xenofobia na Coreia são impossíveis de ignorar. Ainda tem uma desconexão clara entre os 98% da população que são etnicamente coreanos e os 2% de estrangeiros de todas formas – crianças mestiças, esposas estrangeiras, professores de Inglês nativos, “chão de fábrica” estrangeiros e o pequeno número permanente de imigrantes e refugiados que agora são cidadãos coreanos.

Sean Jones
Sean Jones, professor de inglês que soube por mensagem de texto que não conseguiria um emprego por ser negro. Reprodução (The Korea Observer)

Em uma pesquisa realizada em 2013, o Washington Post descobriu que a Coreia do Sul é um dos países menos tolerantes nesse quesito e que “mais de 1 em cada 3 coreanos disseram não querer um vizinho de outra etnia”. Em 2009, o New York Times noticiou que “42% dos coreanos que responderam a uma pesquisa, disseram que nunca conversaram com um estrangeiro.”

De uma forma ou de outra, o racismo afeta quase todos os estrangeiros na Coreia, mas ser negro é diferente. Seja afro-americano, africano ou nem mesmo negro –  basta ser ‘confundido’ com negros – tem sua experiência manchada pela percepção de que negros são inferiores a outras etnias: negros são violentos, não-inteligentes e pobres. Afro-americanos não são realmente americanos e são inapropriados para ensinar crianças coreanas. Africanos vivem num único país atrasado, chamado África, que consiste em muito pouco além de uma floresta. Essas perspectivas não são universais na Coreia, mas, ainda assim, são comumente ouvidas.

Imagem de um dicionário Inglês - Coreano ilustrando um negro de forma preconceituosa e estereotipada. Reprodução (Guts of Popular Feeling)
Imagem de um dicionário Inglês – Coreano ilustrando um negro de forma preconceituosa e estereotipada. Reprodução (Guts of Popular Feeling)

Cada um tem sua própria experiência. Enquanto alguns negros dizem que nunca sentiram nada de racismo no país, alguns dizem que tem que lidar com isso diariamente. Alguns, como Epps – a jovem citada no primeiro exemplo – apenas se afastam. Lee conseguiu convencer de que seria um ótimo professor e foi convidado a ficar. O rapaz que atingiu “fama” no YouTube, através de um vídeo conhecido como See These Rocks (Veja essas pedras), perdeu a paciência com um senhor no ônibus.

O sentimento “anti-negro” na Coreia deriva de um leque de influências, desde a tradicional preferência pela cor branca, até o incêndio da Koreatown de Los Angeles, em 1992; Desde a filosofia confuciana de hierarquia, até a ideia de que o tipo sanguíneo define sua personalidade. Muito disso foi importado, diretamente, do racismo estadunidense. O racismo acontece no local de trabalho, nas ruas, no primeiro encontro com a família da namorada. A mídia local continua a ser inundada por sentimentos, propagandas e percepções racistas. É doloroso e está espalhado.

Maria Hernandez, de 30 anos, é outra estadunidense que encara o racismo todos os dias. “Eu nunca tive que chegar a um acordo com o racismo como tenho que fazer aqui.”

 

O RACISMO NA SALA DE AULA

Jasmine Taiwo e seus alunos. Reprodução (Official Taiwo)
Jasmine Taiwo e seus alunos. Reprodução (Official Taiwo)

Para muitos professores negros na Coreia, o problema começa antes mesmo de chegarem: começa quando precisam encontrar um trabalho. A prática coreana de incluir uma foto no seu currículo não deixam nada para se assumir, nem mesmo a cor da pele.

Deíja Motley, de 34 anos, tem um mestrado, o certificado do TOEFL e anos de experiência como professora, incluindo trabalhos no Japão e em universidades no Haiti. “Eu mandava meu currículo sem fotos e era emboscada pelas respostas dos recrutadores. Todos recrutadores, todas as escolas”, disse Motley, natural de Chicago. “E aí eu enviava minha foto e então nada. Eu tinha sorte se conseguisse uma resposta. E, normalmente, a resposta vinha da China ou de uma escola bem no interior do país.”

Outras histórias incluem chefes das hakwons (algo como um cursinho para estudantes de todas as idades) perguntando: “quão escuro você é, exatamente?”, ou, perguntando abertamente, a candidatos miscigenados se eles se identificam como negros. Cargos “apenas para brancos” podem não ser mais tão comuns quanto eram no fim dos anos 2000, mas ainda podem ser encontrados em sites de empregos. Alguns recrutadores dizem claramente a professores negros: “suas opções são limitadas porque você é negro.”

Apesar das academias entrevistadas pela revista Groove Korea terem dito “não reconhecer essa discriminação contra professores negros”, recrutadores dizem que donos de hakwons discriminam negros de forma explicita enquanto procuram por professores. Um desses recrutadores, que preferiu continuar anônimo, disse que mais de 80% das academias para as quais trabalha – principalmente em Gangnam, no centro de Seul e as franquias conhecidas – preferem candidatos brancos. “Eu continuo recebendo vários currículos de professores afro-americanos, mas é difícil achar um emprego para eles. Eu sinto por eles. Eu só consegui achar dois empregos para eles (em 2013)“, explica ele, adicionando que os professores que conseguiram empregos – apesar de mais de 30 negros terem enviado currículos em 2013 – foram enviados à província rural de Gyeonggi, e não para Seul. “No ano de 2012 foram 6 negros empregados, eu acho. Está piorando.”

Enquanto algumas academias afastam os professores negros por causa de boatos e preconceitos pessoais, o recrutador diz que algumas enfrentam também a pressão dos pais. E com a indústria das hakwons se apertando e o número de academias lutando contra seu fechamento aumentando, a relutância em assumir qualquer risco potencial aumenta. “Os diretores dizem que têm medo de perder alunos se contratarem professores negros. Os pais não acham bom e isso pode dar à academia uma reputação ruim, o que a faria perder na competição contra outras hakwons que têm professores brancos. Algumas hakwons receberam diversas reclamações dos pais e realmente perderam alunos. As fofocas aumentam com rapidez e, algumas vezes, são imparáveis, assim como as críticas por contratar professores negros.”

Gráfico mostra o declínio das hakwons na Coreia. Reprodução (Korea Herald)
Gráfico mostra o declínio das hakwons na Coreia. Reprodução (Korea Herald)

Um recrutador estadunidense, que também preferiu continuar anônimo, disse que as escolas “normalmente” pedem apenas professores brancos. “Nove entre 10 escolas que não pedem professores brancos de início, escolhem entrevistar apenas professores caucasianos. Nós trabalhamos com cerca de 100 escolas na Coreia e apenas de 5 a 10 escolas levam em consideração nossos professores não-caucasianos, mesmo que eles tenham qualificações iguais.”

“Os pais parecem preferir que seus filhos sejam ensinados por professores caucasianos”, diz um coordenador da WILS Language Institution, em Mog-dong, Seul, que também não quis se identificar. Ele diz que a escola não leva em consideração a etnia, mas sim a carreira, a nacionalidade (por causa do visto), a paixão e os estudos relacionados ao inglês. Entretanto, ele diz que a escola ainda não recebeu candidatos negros, apenas candidatos mestiços.

Tony Choi, que é dono de uma pequena hakwon em Gangnam, diz que o preconceito dos pais é a causa do favorecimento na contratação. Os pais são influenciados pelas imagens da mídia – que mostram que brancos são naturalmente bons em falar inglês, enquanto não-brancos não são, ou que mostram que negros são criminosos, menos confiáveis e não educados – e isso dificulta até mesmo para coreanos nascidos em outros países, como ele mesmo, conseguirem emprego. “Não é justo pôr a culpa nos donos da hakwons por não contratarem negros ou kyopos (coreanos nascidos em outros países), porque elas são um negócio e muitos pais querem que seus filhos aprendam com alguém que eles vêem como ‘professor de inglês'”, diz ele.

Mensagem de texto recebida pelo professor afro-americano, Sean. Reprodução: The News Pro
Mensagem de texto recebida pelo professor afro-americano, Sean. Reprodução: The News Pro

Enquanto a abertura a estrangeiros parece estar melhorando, para Choi, a discriminação na hora da contratação piorará, no ponto de vista empresarial: “Como o dono de uma pequena hakwon, é do meu interesse contratar alguém que irá gerar mais negócio para mim, ao invés de contratar alguém que será um obstáculo para conseguir mais estudantes. Isso não é específico para negros, mas eu tenho que contratar alguém que deixe os pais confortáveis.” Mesmo depois de encontrarem um serviço, o problema continua. Professores negros costumam enfrentar assédio, comentários negativos de professores e colegas, e até mesmo campanhas para que eles sejam substituídos.

Hernandez, de Nova Jérsei, diz que ela tem problemas constantes com o coordenador da hakwon em que trabalha, em Gangnam. Ela diz que encontrava barreiras de críticas de seus chefes por conta de seu “cabelo, pele, peso. É constante.” Os pais são uma grande força. Hernandez diz que os pais se voltavam contra ela e tentavam, de qualquer jeito, a fazer desistir o emprego, ou que ela fosse demitida, mesmo com a insistência de que as crianças adoravam as aulas dela. Esses mesmos problemas não parecem afetar os professores brancos da escola. “O professor que eu estava substituindo só sabia brincar”, diz ela, complementando que o professor estava na escola por 2 anos. “Eu mal cheguei lá e os pais me queriam demitida.”

Brendan Spencer, de 28 anos e natural de St. Louis, sente que há uma falta de consideração ou respeito por parte de seus colegas. “É como se eu fosse menor”, diz ele. Quando pediram para que ele fizesse os anúncios matutinos da escola – algo fora de seu contrato – ele aceitou, mas logo disse que estava ocupado demais com o planejamento das aulas para continuar. “Eles ficaram bem chateados com isso. Apesar disso, quando o outro professor – branco – foi sondado, ele simplesmente disse não e ninguém se importou.” Spencer ainda diz que quando discorda dos outros professores, ou reivindica seus direitos, os coreanos agem de forma muito mais emocional do que fazem com os outros. “Eu sinto que se eu fosse coreano ou não-negro esse tipo de vitríolo ou emoção não estaria presente.” 

Scott Meech, um canadense branco e falante do coreano, que trabalhou, em 2009, como professor e gerente de RH em uma empresa que envia professores estrangeiros para diferentes hakwon todas semanas, presenciou a discriminação contra professores negros. Ele começou a receber reclamações contra um professor negro e foi observar as aulas deste. Ele disse não ter visto nada de errado com a didática do professor. “Ele era um bom professor, com uma ótima conduta na sala e uma conexão com os estudantes. Eu me reuni com vários diretores para saber o que estava errado e eles me disseram que muitos estudantes tinham medo de negros. Eles tinham medo de perder seus estudantes.” Ele tentou defender o professor, dizendo que ele era ótimo, mas insistiram que ele deveria ser demitido. Ele se negou a mudar de ideia e avisou o professor que, de qualquer forma, foi demitido um mês depois.

Muitos pais coreanos dizem que seus filhos têm medo de professores negros, mas Elliott Ashby acha que a verdade é outra: as crianças coreanas não têm medo de professores negros – seus pais têm. “Quando eu fazia reuniões de Pais e Mestres, alguns pais perguntavam ‘meus filhos têm medo de você?’, diz Ashby, de 30 anos e natural de Phoenix. “Eu dizia ‘Não, mas acho que você tem.'”

Professor negro com seus alunos. Reprodução (Vanguard Element)
Professor negro com seus alunos. Reprodução (Vanguard Element)

Ashby defende que crianças não conhecem o racismo. Alguns de seus estudantes notavam sua pele escura ou a diferença entre os tons da palma e o dorso de sua mão. Alguns deles perguntavam “Por que você é negro?”, e ele respondia, “Eu só comi chocolate demais!”, mas isso não é racismo, é curiosidade e ele insiste que os professores negros têm que entender isso. “Eles dizem que todo intolerante já foi uma criança sem preconceitos. Crianças não sabem a diferença.”

Mas, algumas vezes, a deseducação vem antes que o professor negro venha. Alguns professores relatam que encontraram alunos que não acreditam que negros podem ser estadunidenses, acreditam que podem ser apenas africanos. Epss descreve que na sua escola, os alunos estavam acostumados com professores afro-americanos, mas uma nova aluna entrou na escola. Ela não falava com a professora e a olhava de forma estranha, até que um dia falou: “Você é Africa”. Ela diz que não precisou falar nada, pois logo os outros alunos responderam “Não, seu bobo. Ela é estadunidense”. A partir disso, Epps se dedicou a educar a aluna, mostrando-lhe fotos de seus amigos brancos da África do Sul e mostrando onde fica Chicago, em um mapa dos Estados Unidos.

Hernandez, por sua vez, diz que faz o melhor que pode para educar seus alunos, mas ela sente que é uma batalha sísififa. Ela acredita que educar as crianças sobre as diferentes etnias é importante, e adiciona: “Eu tentei com meus próprios alunos. Eu digo  ‘ter cabelo enrolado é ok’; ‘Você não é sujo por ter cabelo assim’ ou ‘As pessoas são diferentes’. Então eles vão para casa e seus pais dizem ‘Não, eles são diferentes. Isso não é normal’. Eles os reeducam.” Esse é um ciclo do qual Hernandez acha que nunca vai poder escapar.

 

FORA DO LOCAL DE TRABALHO

Korean Only
Bar com aviso “Apenas Coreanos” na porta. Reprodução (The Korean Observer)

Fora do local de trabalho, os negros relatam dificuldades em pegar táxis, mesmo em lugares onde coreanos e brancos estão conseguindo. Alguns ainda dizem que os taxistas chegam a fazer contornos ilegais para evitar os passageiros negros. Alguns coreanos se recusam a entrar em elevadores com negros e, comumente, trocam de vagões no metrô para evitar estar próximos a passageiros negros.

Ashby diz que numa noite estava com um grupo de amigos estrangeiros e coreanos. “Havia uma menina coreana que tinha cerca de 20 anos. Nós estávamos conversando por, talvez, 2 minutos e ela falou: ‘O jeito que você fala é muito inteligente. E você é muito legal. Não é como a maioria dos caras negros.’ E eu disse: ‘O que você quer dizer com isso?’ E ela respondeu: ‘Você sabe. Não como os caras negros-negros.'” Uma mulher negra disse a Ashby que uma coreana disse que ela era muito bonita e, por isso, ela não poderia ser completamente afro-americana, porque “a maioria das garotas negras têm cara de macaco.” 

John (um nome fictício), tem 26 anos e é de Gana. Ele sente que as pessoas da África sofrem ainda mais do que os afro-americanos e se sente mal por saber que os africanos são vistos, na maioria das vezes, como estúpidos e primitivos.

Muitos coreanos são completamente ignorantes sobre o que nós temos na África, 

diz John, que é um pós-graduando em Ciências Avançadas da Informação e Programa de Tecnologia da Informação, na Universidade Nacional de Pukyong“Eles acham estranho que nós realmente saibamos falar inglês e se perguntam como nós chegamos aqui. Quando eles descobrem que eu tenho uma bolsa de estudos, eles ficam tipo, ‘Nossa!'”. Ele diz que já cruzou com diversos coreanos que sequer sabem que existem computadores na África, quem dirá que existem centros para treinar especialistas em computadores como ele.

Aviso de que estrangeiros são proibidos em um bar em Hongdae. Reprodução (Korea JoongAng Daily)
Aviso de que estrangeiros são proibidos em um bar em Hongdae. Reprodução (Korea JoongAng Daily)

John ainda diz que ele e seus amigos são barrados, frequentemente, em lugares como bares e boates. Ele diz ter aprendido que a placa “Estrangeiros não são permitidos” se direciona apenas a estrangeiros negros e que os brancos podem entrar sem problemas. Numa fila em uma boate, dois de seus amigos brancos pagaram sua entrada e pegaram suas pulserinhas. Ele estava falando ao telefone, mas quando apareceu, o segurança disse que estrangeiros não eram permitidos. “E eu estava lá, pensando: ‘Como você pode permitir que caras da Finlândia e da Espanha entrem, mas no momento em que eu apareço você diz que estrangeiros não são permitidos? Isso é por que eu sou negro ou é por que estrangeiros realmente não são permitidos?'”, e ele ainda diz que não foi um incidente isolado. “Ser um africano na Coreia é cansativo às vezes.”

Muitos negros recebem perguntas como: “Você tem uma arma?” ou “Quantas armas você tem?” O blogueiro Michael Hurt, de 41 anos, diz que tem um sentimento de que negros são baixos, estúpidos, grosseiros, perigosos e até mesmo assustadores. “Eu viro a esquina e as pessoas, literalmente, pulam”. Ele diz que essas pessoas que agora são suas amigas dizem: “Quando eu te conheci, eu estava com tanto medo de você!”. Hurt é metade negro metade coreano e admite que tem um porte mais largo, mas essa não é a única razão pela qual as pessoas têm medo dele. Ele diz que tem amigos brancos que também são grandes, mas as pessoas não surtam quando os vêem na comunidade.

Dooly, um desenho exibido no canal SBS, representa africanos de forma estereotipada. Reprodução (Guts of Popular Feeling)
Dooly, um desenho exibido no canal SBS, representa africanos de forma estereotipada. Reprodução (Guts of Popular Feeling)

Um vídeo – citado acima – gravado através de um celular se tornou viral em 2011. Ele mostra um professor negro insultando um casal coreano de idosos em um ônibus. Ele grita “Você vê essas pedras?” e balança seus punhos para o senhor. Ele confundiu a palavra “niga”  (니가 , forma popular para dizer “você é”) com uma palavra “nigga”, utilizada como ofensa racial nos Estados Unidos.

Enquanto muitos condenaram o professor por piorar a reputação dos negros, Hurt diz que o incidente evidenciou a falta de diálogo sobre o racismo na Coreia. “Bem, é bem isso o que a gente vê – um homem negro, bravo, gritando e assustando… todo mundo. Ele, aparentemente, levantou e começou a atacar as pessoas sem nenhuma razão aparente, só porque é isso que os homens negros bravos fazem, certo?”. Hurt escreveu no seu blog, “Nunca houve uma discussão, em geral, do fato de que os negros, como eu, são assediados diariamente em metrôs, ônibus e trens, porque isso nunca virou um problema; nenhum coreano acha certo pegar o seu celular e gravar para o YouTube cenas de racismo contra os negros. Eu não condeno a atitude desse jovem. Eu entendo ele.”

 

MACACOS, ‘BLACKFACE’ E MELANCIAS 

Propaganda do cigarro "This Africa" numa loja de conveniências em Seul. Reprodução ( JUNG YEON-JE/AFP/Getty Images)
Propaganda do cigarro “This Africa” numa loja de conveniências em Seul. Reprodução ( JUNG YEON-JE/AFP/Getty Images)

Os críticos da mídia ainda não sabem precisamente quando a primeira pessoa negra apareceu na mídia coreana, mas antes dos anos 1980 as imagens da cultura negra que se tornou familiar aos coreanos foi a de escravos, pessoas pobres ou de tribos africanas, de acordo com a professora de sociologia da Universidade Loyola-Marymount, Nadia Kim. Desde os anos 1980, essa imagem se tornou mais sinistra, com grande foco na criminalidade, violência e o uso de drogas presentes na comunidade negra. Isso se origina de uma mistura entre a mídia coreana e estadunidense.

O modo que a mídia mostra os negros pode variar de profissional e benigna, a ignorante e “racialmente ofensiva”, como aponta o blog Omona They Didn’t. Eles marcam o K-Pop como “KKK-pop”, visto o número de ídolos que utilizaram o blackface ou foram pegos reproduzindo o racismo.

Programa do canal KBS apresenta dois artistas com o rosto pintado, roupas de basquete e correntes exageradas, usando a cultura negra para comédia. Reprodução (Omona They Didn't)
Programa do canal KBS apresenta dois artistas com o rosto pintado, roupas de basquete e correntes exageradas, usando a cultura negra para comédia. Reprodução (Omona They Didn’t)

Os coreanos também começaram a copiar o blackface dos Estados Unidos. Matt Van Volkenburg, que tem um blog de opinião pública chamado Gusts of Popular Feelingtraçou referências ao blackface a uma peça de teatro em 1978. Nos Estados Unidos, o blackface ganhou popularidade no século 19, através do vaudeville. Na Coreia, o blackface se tornou associado à comédia em 1986,  com o popular quadro Sikeomeonseu, cancelado antes das Olimpíadas de 1998, por medo de ofender os atletas africanos. Porém, o blackface ressurgiu em 2003, com toda força, graças às Bubble Sisters, um grupo que, no seu início, era totalmente baseado no blackface. O conceito só se alterou em 2006.

Snopp Dogg, rapper estadunidense, tweetou uma foto dele com um coreano usando o blackface, com a legenda: “Dublê. Hahahahahah. Esse nigha aqui!!”  Devido à época em que a foto foi publicada, se acreditava que tinha relação com o clipe de Hangover, canção de Psy, em que Snoop Dogg fez uma participação. A identidade do coreano com o rosto pintado é incerta, assim como a intenção por trás da publicação.

Snoop Dogg e seu 'dublê'. Reprodução (Instragram / @snoopdogg)
Snoop Dogg e seu ‘dublê’. Reprodução (Instragram / @snoopdogg)

Grupos como BEAST, BIGBANG, Girls’ Generation Super Junior já usaram o blackface, seja em vídeos, fotos ou quadros de comédia. Um exemplo é Lee KiKwang, do grupo BEAST, que apareceu em um programa de comédia, em 2010, com o rosto pintado e comendo um pedaço de melancia.

Kim EunMee, professora e reitora da Escola de Estudos Internacionais da Ewha University, diz que muitos artistas como Park JinYoung (JYP) e Psy respeitam e colaboram com afro-americanos e, os que fazem comentários racistas o fazem por conta da ignorância. “Eu não acho que isso aconteça por malícia ou um preconceito enraizado. Eu acho que os jovens estão querendo passar uma imagem legal e essas atitudes surgem disso. Eu espero.”

Motley, a professora de Chicago citada previamente, reconhece que o K-Pop empresta muito da cultura negra e, por isso, ela acha que o racismo no gênero é particularmente irritante. Ela diz que nos clipes de K-Pop sempre tem uma mulher imitando as negras: “Elas mexem o pescoço, usam grandes brincos de argola, estalam os lábios. Você sempre vê algo.” No clipe The Baddest Femalede 2013, CL, do grupo 2NE1, usa um boné de couro de beisebol, calças de corrida, correntes de ouro e até mesmo um grill de ouro nos dentes, tudo isso enquanto mantém dança como se vê em clipes de Hip-Hop. Esse tipo de coisa seria aceitável se fossem feitas com respeito, diz Motley, mas para ela a maioria dos ídolos estão, simplesmente, imitando os negros sem os ter em seus vídeos, sem os reconhecer. “É difícil, porque você vê os ídolos se apresentando e reconhece que aquilo vem da arte afro-americana, da nossa música e dança e, ao mesmo tempo, eles colocam na TV um comercial que faz graça de nós.”

Clipe de Baddest Female, de CL. Reprodução (YouTube)
Clipe de Baddest Female, de CL. Reprodução (YouTube)

Propagandas coreanas já fizeram graça dos africanos também. Em 2013, a Korean Air teve que se desculpar depois de publicar propagandas de sua nova rota para Nairobi, no Quênia. Na propaganda, eles diziam para os coreanos “voarem com a Korean Air e aproveitarem uma grande Savana Africana, o safári e os indígenas cheios de energia primitiva.”

KyoChon Chicken divulgou uma propaganda, em 2010, em que dizia que se você estivesse em uma ilha deserta, cheia de negros raivosos, que querem te cozinhar, você deveria deter eles com frango frito. E, em 2013, a marca de cigarros This Africa colocou macacos torrando o tabaco na caixa de seus cigarros e macacos fingindo entrevistarem uns aos outros nos outdoors. A BBC citou a companhia KT&G: “Nós tão tínhamos nenhuma intenção de ofender alguém e só escolhemos os macacos porque eles são animais adoráveis que nos lembram das pessoas da África.” Apesar da remoção dos outdoors, a caixa dos cigarros não foi, pois a companhia não a considera ofensiva.

Outdoor do cigarro 'This Africa'. Reprodução (Telegraph)
Outdoor do cigarro ‘This Africa’. Reprodução (Telegraph)

Também em 2013, a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Coreia monitorou 35 programas televisivos do país e descobriu que muitos desses programas mostravam esteriótipos étnicos e culturais ou fizeram comentários discriminatórios contra imigrantes.  A Comissão ainda apontou um programa, que mostrava um personagem discutindo sobre uma pessoa negra e dizendo coisas como: “a pele deles é tão escura, então eu achei que eles também fossem”, se referindo à personalidade. Em outro show, um integrante associa a “dança tradicional africana” com a “dança do King Kong.”

O drama The Golden Bride (2007 – 2008) tinha um sub-enredo sobre um coreano que é preso nos Estados Unidos, é aterrorizado pelos presos negros e retorna à Coreia com stress pós-traumático. Em setembro de 2013 um desenho feito por Bounce Kim, no nate.com, mostrava o arremessador do LG Twins, Radhames Liz, que é dominicano, sendo linchado pelo Ku Klux Klan por atingir, acidentalmente, a cabeça de um jogador coreano e, então, arremessar três strikeouts seguidos – o que, em coreano, é conhecido como KKK, mesma sigla da infame organização.

Quadrinho criado por Bounce Kim. Reprodução (Deadspin)
Quadrinho criado por Bounce Kim. Reprodução (Deadspin)

Existem diversos exemplos: propagandas em outdoors para produtos clareadores que dizem: “branco é bonito, negro não”, e propagandas com africanos jogando lanças durante partidas de futebol contra países africanos. Um canal bastante popular em academias privadas, o Africa TV, tem sido muito criticada por mostrar a África como um continente e nativos dançantes e sem sapatos.

 

TIPOS SANGUÍNEOS E HIERARQUIAS

Chaveiros que representam os tipos sanguíneos. Reprodução (TeachingTravel)
Chaveiros que representam os tipos sanguíneos. Reprodução (TeachingTravel)

O racismo contra negros na Coreia tem várias raízes: o nacionalismo étnico e a xenofobia coreana, que afeta todos os estrangeiros no país; séculos de isolamento que manteve os coreanos afastados de outras etnias; uma valorização tradicional da cor branca; o confucionismo; e, mais do que tudo, o racismo importando dos Estados Unidos.

De acordo com o professor de sociologia Shin GiWook, da Universidade de Standford, existe uma crença de que o povo coreano é definido pelo sangue que compartilham. Essa crença é aplicada, por eles, em todos os países e, por isso, eles acreditam que os estadunidenses devem ser brancos.

Muitos coreanos também acreditam que o sangue define a personalidade – era bastante comum ver coreanos perguntando qual seu tipo sanguíneo, até mesmo durante entrevistas de emprego. Isso ainda acontece, mas com menos frequência. Uma vez que o sangue é utilizado como indicador de personalidade, não é um salto muito grande acreditar que as etnias são diferentes, assim como pessoas com tipos sanguíneos distintos são, diz Nadia Kim. Ela escreveu o livro Cidadãos Imperiais: Coreanos e Etnias de Seul a Los Angeles, que descreve o conceito de etnia e que o usar o tipo sanguíneo para definir a personalidade também cria uma “biologização” das etnias. “Isso cria um sistema de categorias baseado na divisão biológica e uma hierarquização de humanos que já foi completamente refutado.”

Capa do livro de Nadia Kim. Reprodução (Standford University Press)
Capa do livro de Nadia Kim. Reprodução (Standford University Press)

Kim aponta que a ideia de “raça” em si é apenas uma construção social. As pessoas são diferentes por causa da evolução social e pela origem de seus ancestrais, não por causa de seu sangue ou tipo sanguíneo. Apesar das provas de que não há diferença biológica entre as etnias – além da cor da pele, formato dos olhos e outras diferenças superficiais – elas ainda são utilizadas como uma forma de justificar o racismo e afetar a relação entre as pessoas.

Historicamente, os coreanos elevaram a cor branca como “pura”, o que beneficia a “nobreza” da pele clara sobre os “plebeus” de pele escura, diz Kim. O hanbok de cor totalmente branca também é associado à etnicidade coreana. “Existiam significados associados à cor branca – paz, ser um povo pacífico, pureza.” Diz Kim, notando que esse julgamento existiu em muitas sociedades. “Eu não acho que isso não tenha importância, particularmente quando isso se cruza com a ordem estadunidense e mundial que coloca os brancos no topo.”

O confucionismo, que é a ideologia nacional da Coreia desde o século 14, ordena todos em cinco relações desiguais. Não existe uma categoria para etnia, mas ela pode ser aplicada à equação, e certas etnias podem ser vistas como superiores ou inferiores na hierarquia confucionista, baseando-se nos status de trabalho, renda ou fatores similares. “Mesmo que o ‘status de imigrante’ ou o ‘status racial’ não constem nas cinco relações do sistema hierárquico, ele se utiliza disso,” diz Kim.

 

IMPORTADO DOS ESTADOS UNIDOS

Apesar de tudo, a maior influencia no sentimento anti-negros dos coreanos é os Estados Unidos, com sua história selvagem e racista. Antes da Guerra da Coreia, os Estados Unidos eram vistos como um país estritamente branco e um dos que trouxe as universidades, hospitais e o cristianismo – com seu Jesus branco – para às massas coreanas. Quando a guerra começou, em 1950, houve a surpresa devido ao grande número de soldados negros. Mesmo que o governo estadunidense não tivesse dados estatísticos sobre a etnia dos soldados, é estimado que o 600 mil soldados negros serviram na Guerra da Coreia e 5 mil tenham morrido em batalha.

Soldados americanos da segunda infantaria durante a Guerra da Coreia. Reprodução (Wikipédia)
Soldados americanos da segunda infantaria durante a Guerra da Coreia. Reprodução (Wikipédia)

Mesmo que o militarismo estadunidense tenha se desagregado em 1948, ele ainda era viciosamente racista. A maioria dos oficiais eram brancos e o número de alistados negros era desproporcionalmente maior. Os coreanos viam os negros sendo subservientes aos brancos e esse foi o contexto criado para contatos futuros, diz Kim.

A guerra acabou em 1953, mas o exército estadunidense continuou no país para garantir a estabilidade. A dinâmica radical do exército demorou muito para mudar. Apenas em 1973, o primeiro senso sobre a etnia dos soldados foi realizado e se constatou que 18% dos soldados eram negros, mas apenas 4% eram oficiais. Em 2009, negros eram 21% dos soldados e apenas 13% dos oficiais.

“Eu acho que o sentimento anti-negro veio especificamente do contato com estadunidenses e, francamente, coreanos aprendem rápido”, diz Michael Hurt. “Quando as vilas militares operavam, eles viam os negros na parte mais baixa do totem. Os oficiais eram brancos, os negros os soldados. A diferença era tanta que haviam prostitutas que trabalhavam apenas com os oficiais brancos e aquelas que lidavam com os soldados negros. Elas eram as prostitutas de ‘baixo nível.'”

A vila militar de Anjeong-ri. Reprodução (AP)
A vila militar de Anjeong-ri. Reprodução (AP)

Desenvolveu-se também uma percepção de que os soldados negros eram mais “problemáticos” que os brancos, principalmente depois que o Movimento de Direitos Civis se espalhou pelo militarismo coreano. Kim escreve em seu livro que em uma revolta em Itaewon, no começo dos anos 1970, soldados negros destruíram vários clubes e foram proibidos de entrar nestes. “Cinquenta soldados negros entraram, simultaneamente, em cinco clubes da vila militar, ordenaram que as pessoas saíssem e demoliram os estabelecimentos como um ato de protesto contra o preconceito dos clubes. Os soldados encontraram um grupo de mais de mil coreanos, que os perseguiram com foices e jogaram pedras neles em retaliação, atacando-os fisicamente.”  De acordo com as entrevistas feitas por Kim, para muitos coreanos os soldados negros de “baixo escalão” passaram a simbolizar todos os negros nas décadas seguintes.

A mídia estadunidense também influencia as atitudes na Coreia  e a maioria dos negros expatriados, entrevistados pela Groove Korea, culpa essa mídia em algum nível. Kim escreve que a mídia estadunidense fez mais para influenciar as atitudes coreanas do que qualquer coisa. “Os meios de comunicação de massa nos Estados Unidos, provavelmente, inseriram a imagem do negro como escravo, integrante de gangue, viciado em drogas, e o artista unidimensional na consciência coletiva sul-coreana.”

A cobertura dos distúrbios de Los Angeles, que ocorreram em 1992, foram extremamente chocantes para os coreanos. A violência surgiu após a inocentação – por um juri composto apenas por pessoas brancas – de quatro policiais filmados espancando Rodney King, um homem negro. Enquanto a polícia e a Guarda Nacional protegiam as comunidades brancas e ricas, como Bel Air Beverly Hills, eles deixaram a Koreatown da cidade queimar. Mais de 2.300 negócios, cujos donos eram coreanos, foram destruídos.

Policiais mantém vigia enquanto um shopping center pega fogo na Koreatown de Los Angeles, durante as revoltas de 1992. Reproduçaõ (Kang HyungWon / Los Angeles Times / Reuters)
Policiais mantém vigia enquanto um shopping center pega fogo na Koreatown de Los Angeles, durante as revoltas de 1992. Reproduçaõ (Kang HyungWon / Los Angeles Times / Reuters)

Na época, já existia uma tensão entre os negros e os coreanos donos de lojas nos Estados Unidos, principalmente em Los Angeles. Os comerciantes coreanos estavam, supostamente, cobrando a mais e desrespeitando os clientes negros de suas lojas. O rapper Ice Cube manifestou essa tensão de forma clama em sua música Black Korea, lançada em 1991, onde ele diz: “aprenda a falar inglês primeiro, ok?” e chama os coreanos de “orientais filhos da **** contadores de centavos” e ameaça “queimar suas lojas às cinzas.”

No mesmo ano, uma garota negra de 15 anos, chamada Latasha Harlins, morreu ao tomar um tiro nas costas. Quem disparou a arma foi Du SunJacomerciante coreana que achou que a menina estava roubando uma caixa de suco de laranja. Du foi considerada culpada por homicídio voluntário, mas poupada de cumprir sua pena na prisão, sendo sentenciada à liberdade condicional, serviço comunitário e uma multa. A sentença foi recebida com ódio pela comunidade negra.

Du SunJa, comerciante coreana que assassinou uma jovem negra. Reprodução (EthnoScopes)
Du SunJa, comerciante coreana que assassinou uma jovem negra. Reprodução (EthnoScopes)

Kim diz que as revoltas de Los Angeles foram um momento divisório na desconfiança entre negros e coreanos nos Estados Unidos, e que respingou na Coreia através da mídia e de conversas com amigos estrangeiros e parentes. Ela diz que houve alguma menção do nome de Rodney King na cobertura feita pela mídia coreana, mas não muito. O foco mudou para a criminalidade coreana ao invés do sofrimento já que “muitos novos imigrantes coreanos e os sul-coreanos chamaram de ‘revoltas’, um modo de cristalizar sua raiva e medo dos negros’. 

Apesar disso, a simpatia surgiu entre as comunidades. Por mais que Ice Cube tenha ameaçado queimar algumas lojas, Ice-T cantou, em Race War, música de 1993: “Os coreanos vivem debaixo dos panos / um pequeno mal entendido / orientais foram escravos também.” Muito pouco foi noticiado, tanto nos Estados Unidos quanto na Coreia, sobre as demonstrações pós-revoltas realizadas por coreano-americanos, em solidariedade aos afro-americanos marginalizados.

 

 

CRIADOS PARA SEREM RACISTAS

O rapper 50 Cent em photoshoot que alimenta os esteriótipos da cultura negra. Reprodução (Shady Records)
O rapper 50 Cent em photoshoot que alimenta os esteriótipos da cultura negra. Reprodução (Shady Records)

Muitos coreanos assumem que foram criados para acreditar que negros não são o tipo de pessoa que eles querem na Coreia. Os entrevistados pela Groove Korea que assumiram isso pediram para ter seu nome completo omitido.

Ahn, de 39 anos, é um executivo de Seul e disse que teve muito pouca exposição aos estrangeiros durante sua criação. Ele admite que quando ele e sua família viam não-coreanos, eles reagiam conforme a cor da pele deles. “Quando víamos negros, meus pai e todo mundo diziam ‘sujo’. Talvez porque eles se pareçam com macacos no zoológico, porque eles são raros de se ver. Nós realmente tínhamos medo deles, como uma fobia.” Quando o estrangeiro era branco, Ahn assume que a reação era diferente: “Meus pais e pessoas da idade deles diziam que pessoas brancas eram boas, limpas, confiáveis, porque eram brancas – eles são americanos. Eles nos ajudaram.” Ele afirma que os filmes e músicas estadunidenses influenciaram os coreanos a verem os negros como sujos, pobres e violentos. “O modo que eles olham os negros veio para a Coreia. Então os coreanos olhavam para os negros da mesma forma que os americanos.”

Lee, comerciante em Paju, na província de Gyeonggi, diz que também foi criada com a visão de que negros são inferiores aos brancos. “Eu achava que negros não eram inteligentes ou ricos, como não-negros. Era algo comum entre eu e meus colegas. Eles sempre eram apresentados dessa forma na TV. TV e filmes costumavam mostrar vizinhanças terríveis com moradores negros e era assim que nós pensávamos.”

Para muitos, as atitudes mudaram com o tempo através da mídia e do contato. Hoje, Ahn sente que existe pouco racismo contra negros, mas que a animosidade de voltou contra chineses e trabalhadores que vêm do sudeste asiático. Os jovens da Coreia, ele diz, acham que “ser negro é bom, ser negro é legal, porque eles veem nos filmes e no YouTube que os negros não são mais pobres ou sujos, mas que eles são legais com o Hip-Hop, filmes, música, esportes, Michael Jordan.”

TaeYang com seu estilo baseado na cultura afro-americana. Reprodução (YG Entertainment)
TaeYang com seu estilo baseado na cultura afro-americana. Reprodução (YG Entertainment)

Kim, comerciante em Ilsan, na província de Gyeonggi, acreditava que os negros eram pobres, burros, preguiçosos e violentes, mas ela foi à Tanzânia, em uma viagem de três semanas, e tudo mudou. Ela diz que ficou particularmente impressionada com o zelo dos tanzanianos com a educação e com o quão duro eles trabalham, duas qualidades também muito valorizadas na sociedade coreana.

A percepção mudou para Ahn e sua família quando seu pai trouxe um colega de negócios para jantar. “Minha mãe nunca tinha visto um negro antes e naquele tempo ela acreditava que eles eram sujos, perigosos e que viviam em favelas”, ele diz. Mas depois que o homem foi à casa deles e jantou com eles, a mãe de Ahn mudou de ideia. Ahn acredita que os coreanos têm medo do que não conhecem, mas que “quando eles conhecem um amigo, eles não se importam mais.”

 

 

MAS O QUÃO RUIM É?

Lee HyoRi junto de crianças africanas. Reprodução (Kiep)
A cantora Lee HyoRi junto de crianças africanas. Reprodução (Kiep)

Apesar de toda a discriminação que enfrentam, quase todos os negros entrevistados pela Groove Korea disseram gostar ou amar a Coreia. Muitos foram rápidos em apontar que nem todo coreano é racista – o fato é que a maioria dos coreanos que eles conhecem não são. Muitos indicaram que nunca sofreram nenhum racismo na Coreia.

“Coreia – existe racismo aqui?”, foi a resposta de três bibliotecárias em Itaewon quando perguntadas sobre o racismo. As três insistiram nunca terem sido vítima de racismo no país e que, se realmente houvesse a discriminação no país, era muito pequena se comparada a países como Rússia e Tailândia.

Shams el-Din Rogers, de 44 anos e natural de Detroit, visitou a Coreia durantes as férias por duas semanas e gostou tanto que voltou para morar. “Eu não senti nenhuma discriminação na Coreia. Se as pessoas estão me discriminando, elas estão disfarçando muito bem.” 

CL e Will.I.Am, do Black Eyed Peas. Reprodução (Instagram / @chaelincl)
CL e Will.I.Am, do Black Eyed Peas. Reprodução (Instagram / @chaelincl)

Rogers, que dá aulas na ilha de Geoje, diz que nos seus três primeiros dias, ela estava ajudando uma noiva a escolher o seu hanbok de casamento. Ela ainda conta que enquanto esteve passeando pela Coreia recebeu convites para dormir na casa de estranhos (que ela recusou) e que tudo foi “muito confortável.”

Samantha Coerbell, de 42 anos e natural do Queens, em Nova York, disse que nunca se sentiu discriminada também. Antes de deixar os Estados Unidos, pessoas brancas disseram que ela não conseguiria um emprego, o que ela diz ter se provado uma grande inverdade. No seu primeiro emprego em uma hakwon, o chefe ficou ao seu lado quando os pais expressaram sua preocupação em ter uma professora negra. “Ele queria expor seus alunos aos Estados Unidos – os Estados Unidos como um todo e não só uma parte. Quando os pais se preocuparam pelo fato de existir uma professora negra, ele ficou ao meu lado e conversou com eles sobre minhas qualificações e sobre meu relacionamento com as crianças.” Desde então ela só vivenciou boas experiências e o único racismo que encontrou veio por parte de americanos brancos.

G-Dragon em companhia de Pharrell Williams. Reprodução (SBS Australia)
G-Dragon em companhia de Pharrell Williams. Reprodução (SBS Australia)

Jessica Womack, de 25 anos e natural da Florida, diz que nota algumas similaridades entre a cultura coreana e negra, desde a comida até a música. Ela também nunca se sentiu discriminada. “Eu sinto que muitas pessoas estão confortáveis comigo.” Ela acha que estranhos estão sempre felizes de conversar com ela e conta: “Um dia uma menina veio até mim e disse: ‘Sempre que eu falo oi para uma pessoa branca, ela não diz oi para mim. Mas sempre que eu falo oi para uma pessoa negra, eles sempre respondem.'” Ela diz que a discriminação não tem relação necessária com a cor, mas simplesmente com o fato de ser não-coreano. “Se você não é coreano, você só não é coreano. Ponto.”

Muitos apontam que as tensões da Coreia com os chineses e outros asiáticos são mais longas e profundas do que essa discriminação contra os negros, a quem eles só foram expostos nas últimas seis décadas. A professora Kim, da Universidade Ewha, acredita que a Coreia esteja se movendo para uma direção positiva, para além do blackface e das piadas de mal gosto. Ela aponta as colaborações de JYP com artistas americanos como Will Smith, R. Kelly e Mase. Ela ainda diz que as alunas que vê agora não são as mesmas de alguns anos atrás. “Você pode ver que as coisas estão mudando rapidamente,  em um curto período de tempo. Eu espero que estejamos numa trajetória que nos leve a uma sociedade mais aberta, diversa e multicultural. Nós não estamos lá ainda, mas nem mesmo os Estados Unidos chegaram lá.”

Jaden Smith e Jay Park em evento. Reprodução (E News)
Jaden Smith e Jay Park em evento. Reprodução (E News)

Muitos negros acham que os brancos estrangeiros são tão racistas quanto os coreanos, se não mais. O professor Jamian Baily, de 29 anos, diz que os brancos sul africanos de sua cidade costumam passar por negros e dizer coisas como: “Hey, estiveram em algum tiroteio ultimamente?”

Motley, uma das professoras já citadas, disse que ouviu uma professora branca dizer a um coreano com quem estava saindo para “nunca sair com pessoas negras” porque elas são “ignorantes”. “Eu odeio essa garota. Ela está sempre agindo como uma ‘nigger'”, essa mulher branca disse em uma mensagem sobre Motley.

Corey Scott, de 44 anos e natural da Virginia, diz que sofreu discriminação de coreanos e admite que foi complicado criar dois filhos negros na Coreia, mas ele também diz claramente que “coreanos são pessoas muito tolerantes e pacíficas. Eles têm suas particularidades, como toda cultura, mas o nível de racismo aqui é aceitável.” Isso é um contraste com a Arábia Saudita, país em que vive agora, onde o racismo é gritante. “O racismo na Arábia Saudita está num nível completamente diferente. É simplesmente escancarado.”

 

SEGUINDO EM FRENTE

Artistas africanos protestam contra tratamento recebido em museu. Reprodução (Koreabang)
Artistas africanos protestam contra tratamento recebido em museu. Reprodução (Koreabang)

Mesmo que alguns não sintam, o racismo existe. A professora Bang HeeJung, da Universidade Ewha, fez uma pesquisa com 121 estudantes coreanos em Seul e descobriu que a maioria deles prefere ter amigos coreanos ao invés de amigos não-coreanos. Porém, quando foram perguntados que tipo de não-coreanos eles preferiam ter como amigos, os negros tiveram uma pontuação mais baixa do que os branco, enquanto os asiáticos do sudeste tiveram a pior pontuação.

Ashby acha que o problema pode ser solucionado através do aumento do contato. “As crianças na Coreia de hoje estarão em uma posição muito melhor, porque elas não podem nos discriminar. Elas nos conheceram, elas nos viram cara-a-cara e sabem do que somos feitos. É mais difícil construir uma versão unidimensional de uma pessoa de tal país, ou de alguém que seja negro, ou judeu, ou qualquer coisa, quando você conhece essa pessoa.”

Hurt, entretanto, acredita que a melhor forma de forçar os coreanos a mudar é forçar sua imagem racista para o mundo. Por exemplo, Hurt diz que a mídia poderia ser utilizada como uma “geradora de vergonha”. “O que aconteceria se a Time fizesse uma publicação com o nome de O Novo Racismo e colocasse a Coreia como um dos países mais racistas do mundo? A coisa mudaria rapidinho.”

Yoon MiRae, ou Tasha, cantora mestiça (afro-americana e coreana), tida como uma das, se não a melhor, rapper coreana. Reprodução (YouTube)
Yoon MiRae, ou Tasha, cantora mestiça (afro-americana e coreana), tida como a melhor rapper coreana. Reprodução (YouTube)

Ashanti Lee acredita que, primeiramente, é necessário que os coreanos percebam o que está acontecendo. No fim, ele diz, são eles que devem mudar as coisas. “O jeito de acabar com esse aborrecimento é fazer com que os coreanos se importem. Se os coreanos que não são racistas puderem falar sobre isso e fazer com que os outros coreanos se importem, eles irão ouvir. Mas eles não irão ouvir os estrangeiros, principalmente a minoria desses estrangeiros.” Nadia Kim acredita que a melhor forma – e na maioria das vezes a única – de mudar algo é através da organização. “Eu acredito que tudo começa com movimentos sociais. Assim como foi com o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos.”

Isso tudo, obviamente, leva um tempo. Por enquanto, muitos dizem que sentem a responsabilidade de dar um bom exemplo para o resto da sociedade. “Eu acho que se uma pessoa branca faz algo, as pessoas podem dizer ‘estrangeiros são maus’. Isso vai fazer todos nós parecermos ruins,” diz Spencer, o professor de St. Louis, “mas se uma pessoa negra faz algo, eu sinto que isso não vai se refletir em nenhuma outra etnia a não ser a nossa.”

Enquanto isso, Bailey espera que essa atitude mude logo. “Eu não digo que todos coreanos sejam ruins, mas me incomoda o fato de eu não conseguir um certo emprego aqui e eu sofrer preconceito. É quase como se o pensamento deles tivesse infectado pela ideia de que o branco é melhor que o negro.”

Nós somos todos humanos no fim do dia e não devia importar a nossa cor de pele. Devia importar que tipo de pessoa nós somos.

SARANGINGAYO – AMOR À DIVERSIDADE

Imagem de perfil da campanha "SARANGINGAYO - AMOR À DIVERSIDADE", em comemoração ao 20/11, Dia Nacional da Consciência Negra. Fanart: Júlia Lemes (K-artoons)
Imagem de perfil da campanha “SARANGINGAYO – AMOR À DIVERSIDADE”, em comemoração ao 20/11, Dia Nacional da Consciência Negra. Fanart: Júlia Lemes (K-artoons)

O racismo e a xenofobia são questões de importância em qualquer âmbito, assim como a busca pelo respeito independente da cor da pele ou nacionalidade. Com a globalização da Onda Hallyu devemos promover a reflexão sobre a temática da diversidade na Coreia do Sul, um país tão rico em cultura e com tanto a oferecer para estrangeiros.

Abre sua mente, Coreia, pois seu coração é grande!

Fonte: Korea Stripes
Por favor, não retirar do SarangInGayo sem os devidos créditos.

Post Author: Maria Carolina

Da turma de 1989 e viciada em línguas, história, tragédias e música. O primeiro contato com a Coreia veio com a Pump it Up (aquelas máquinas de dança que foram febre nos anos 2000), tanto que aquelas músicas e grupos nos anos 1990 ainda tem um lugarzinho especial no meu coraçãozinho, principalmente CLON (aquele clipe... isso não se faz, gente). Resisti por muito tempo ao kpop "novo", mas não dá pra continuar resistindo a esses novinhos cheios de talento por muito tempo.