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[ESPECIAL] Resumo: Park GeunHye e o escândalo presidencial 0

A atual presidente da Coreia do Sul, Park GeunHye, está envolvida no que, provavelmente, é o maior escândalo de sua carreira política – e um dos mais marcantes na história recente do país. Para entender melhor tudo o que está acontecendo, é necessário voltar no tempo e explicar como e quando o caso surgiu.

UM POUCO SOBRE A FAMÍLIA PARK

Park ChungHee, seus filhos e sua esposa. Foto: Reprodução (Telegraph)

Park ChungHee, seus filhos e sua esposa. Foto: Reprodução (Telegraph)

Park GeunHye é a primeira filha do ditador Park ChungHee e sua segunda esposa, Yuk YoungSoo. Seu pai chegou ao poder após o golpe militar de 1961, que destituiu a Segunda República. Nos dois primeiros anos, ele foi o chefe do Conselho Supremo para Reconstrução Nacional e em 1963 ele foi eleito, dando início a Terceira República. ChungHee declarou lei militar em 1972, e seguiu como presidente até 1979, ano de seu assassinato. Seu governo é reconhecido pelo grande processo de industrialização do país – também conhecido como O Milagre do Rio Han – e pelo autoritarismo.

Sua mãe foi assassinada em 1974 por um coreano zainichi (coreanos étnicos que vivem no Japão) , Moon SeGwang. O assassino era um simpatizante norte-coreano, algumas vezes colocado como espião, que pretendia assassinar Park ChungHee. A primeira dama levou um tiro na cabeça e passou por uma cirurgia de cinco horas, mas acabou falecendo.

 

UM POUCO SOBRE A FAMÍLIA CHOI

Park ChungHee (esquerda), Park GeunHye (centro) e Choi TaeMin (direita). Foto: Reprodução (Huffpost)

Park ChungHee (esquerda), Park GeunHye (centro) e Choi TaeMin (direita). Foto: Reprodução (Huffington Post)

Choi TaeMin – que usou diversos nomes e se casou diversas vezes – era um líder pseudo-cristão de uma seita. Começou sua vida como policial e soldado, trabalhou em um pequeno jornal e até em uma fábrica de sabão. Na década de 1970, ele já estava completamente envolvido com sua seita, chamada Yongsae-gyo (Igreja da Vida Eterna), que misturava elementos do cristianismo e do xamanismo. Ele dizia poder curar pessoas e que era um pastor, mas nunca frequentou um seminário.

TaeMin era amigo de Park ChungHee e se aproximou de Park GeunHye em 1975, um ano após o assassinato de sua mãe. Segundo relatos, ele dizia que a falecida primeira-drama não havia morrido, mas apenas “saído do caminho para abrir espaço para GeunHye” e usava sua posição entre os Park para juntar fortuna através de suborno, propina e abuso de influência. O caso ficou tão severo, que o próprio Park ChungHee chamou TaeMin para interrogatório, mas nada foi feito. Esse tipo de reação do então Presidente foi uma das razões citadas pelo seu assassino, o chefe do Serviço de Inteligência da Coreia do Sul. Ele teria dito que Park ChungHee “não conseguia se livrar da influência de TaeMin e que fazia isso por causa de sua filha, que tinha uma “relação tóxica” com o ‘pastor'”.

 

A INFLUÊNCIA DA FAMÍLIA CHOI

Foto: Reprodução (Oh My News)

Foto: Reprodução (Oh My News)

Documentos vazados pelo Wikileaks, em 2011, indiciam que TaeMin teve um importante papel na formação de Park GeunHye. O embaixador americano na Coreia na época, Alexander Vershbow, chegou a dizer: “Talvez, mais prejudicial à sua imagem de jovem que se sacrificou a serviço da nação após o assassinato de sua mãe, é a ligação de Park com o falecido Choi TaeMin, um carismático pastor. Rumores dizem que ele tinha completo controle do corpo e alma de Park durante seus anos de formação e que seus filhos acumularam uma grande fortuna como resultado.”

Após o assassino de ChungHee, Park GeunHye e Choi TaeMin saíram da vida política, mas a influência do “pastor” não se desfez. Em 1990, Park GeunRyeong e Park JiMan – irmão da atual Presidente – escreveram uma carta ao Presidente atuante, dizendo que a irmã precisava ser salva de TaeMin, que era “um trapaceiro que deveria ser severamente punido”.

O mentor de GeunHye morreu em 1994, mas sua filha, Choi SoonSil, assumiu o “cargo” de mentora, amiga e conselheira de GeunHye. Sua influência parece não ter problemas em rivalizar com a do pai, já que seu marido, Chung YoonHoi, chegou a ser um assessor direto da Presidente, no período em que ela estava na Assembleia Nacional.

 

OS ESCÂNDALOS

Choi SoonSil acompanha Park GeunHye em eventos políticos na Universidade Hanyang. Foto tirada em 1979, quando Park ainda era Primeira Dama. Foto: Reprodição (Newstapa)

Choi SoonSil acompanha Park GeunHye em eventos políticos na Universidade Hanyang. Foto tirada em 1979, quando Park ainda era Primeira Dama. Foto: Reprodição (Newstapa)

O escândalo veio à público no dia 24/10/2016, após uma reportagem do canal pago JTBC. No escritório abandonado de Choi, encontraram um tablet com diversas informações que deveriam ser restritas a integrantes do governo, como discursos da Presidente com anotações feitas pela própria Choi, resumos de reuniões, informações de reuniões para assessores, mensagens trocadas com os assessores, a agenda de férias da presidente e rascunhos de carimbos comemorativos. O tablet não tinha nenhuma senha e continha, até mesmo, fotos e selfies de Choi. Apesar de amiga íntima da Presidente GeunHye, Choi SoonSil é apenas uma civil, sem nenhum cargo público ou oficial.

Com isso, outras suposições começaram a surgir. Alguns dizem que Choi SoonSil está envolvida com a Fundação Mir e a Fundação K-Sports, que se tornaram o centro de um escândalo de tráfico de influência e extorsão. Uma das acusações envolve o uso que Choi fazia dessas fundações, para forçar grandes empresas a doarem grandes quantidades de dinheiro.

Assim como o seu pai, SoonSil também pode ter usado sua influência para ajudar sua filha, Chung YooRa, a conseguir uma vaga na prestigiada Ewha Woman’s University.

Logo da Ewha Woman's University. Foto: Reprodução (Ewha University)

Logo da Ewha Woman’s University. Foto: Reprodução (Ewha University)

 

A universidade tem um programa para admissão de atletas, onde comumente eram aceitos atletas de 11 modalidades. Em 2015, esse número foi expandido para 23 modalidades e foi incluso o Adestramento de Cavalos – modalidade do hipismo praticada por YooRa. Uma oficial responsável pela admissão teria dito aos avaliadores para escolher atletas que tivessem ganhado ouro em grandes competições, o que foi justificado depois através de uma representante, que informou que a universidade pretende “selecionar atletas de nível internacional”. De fato, YooRa conseguiu uma medalha de ouro nos Jogos Asiáticos de 2014, porém, a conquista ocorreu no dia 20/09, quatro dias depois da data limite para as aplicações à universidade.

Baseado em documentos submetidos pela universidade, a oposição afirma que Chung também recebeu tratamento preferencial durante seus anos de estudante. Por exemplo, ela recebeu nota B (entre 8 e 8,9) em um trabalho plagiado que entregou após a data limite, isso graças a uma nova regra, que passou a vigorar em setembro de 2015, que determina que alunos que têm boas performances em áreas artísticas e atléticas podem receber, ao menos, um B em matérias acadêmicas.

De acordo com relatos, professores também eram exageradamente gentis com ela. Ainda segundo a oposição: “Professores usavam termos honoríficos quando se comunicavam com ela por e-mail, que sequer ia às aulas.” As alunas devem entregar um documento caso necessitem se ausentar, pedindo para reconhecerem sua presença, coisa que Chung nunca fez. A oposição ainda afirma que Choi visitou um professor, junto da filha, pedindo para reconhecer a presença de Chung.

A Associação de Professores da universidade criou um comitê investigativo e enviou uma carta formal à presidente da Ewha, Choi KyunHee, pedindo para que revelasse a verdade sobre o assunto. Em um comunicado, a associação disse: “Muitas suspeitas marcharam a reputação da Ewha e também afrontaram os professores e alunos”. No momento, Chung está de licença da universidade. Essa é a segunda vez que ela deixa a universidade, em apenas quatro semestres.

A empresa multinacional de tecnologia, Samsung, está sendo investigada também. Durante a última semana, os escritórios da empresa em Seul foram vasculhados por investigadores. De acordo com o Yonhap, a empresa teria repassado cerca de 2,8 milhões de euros para Choi no tempo em que ela esteve na Alemanha e que esse dinheiro serviria par o treinamento para a filha de Choi, YooRa.

 

REAÇÕES

Protestantes usando máscaras de Choi SoonSil (esquerda) e Park GeunHye (direita) posam para foto durante protesto no dia 27/10/2016. Foto: Reprodução (Jung YeonJe AFP/File) Protestors wearing masks of South Korean President Park Geun-Hye (R) and her confidante Choi Soon-Sil pose for a photo during a rally in Seoul, on October 27, 2016 ©Jung Yeon-Je (AFP/File)

Protestantes usando máscaras de Choi SoonSil (esquerda) e Park GeunHye (direita) posam para foto durante protesto no dia 27/10/2016. Foto: Reprodução (Jung YeonJe AFP/File)

 

A reação dos sul-coreanos após o surgimento dos escândalos é acalorada. Choo MiAe, do partido MinJoo – principal opositor da Presidente – que disse: “Isso não é sequer uma ditadura! É uma teocracia assustadora”. O país acredita que a presidente está sendo – e sempre foi – guiada por videntes e charlatões, e que ela é integrante de um culto religioso.

Além da reação da oposição, os escândalos causaram revolta na população, que reagiu de formas diferentes. Enquanto alguns foram à internet pedir o impeachment da presidente, usando as hashtags “impeachment”, “Park GeunHye impeachment” e “JTBC”. Outros foram às ruas em protestos conhecidos como haya, que é um processo de pressão por meio de manifestação popular. A ideia é demonstrar que, nesse caso, a Presidente não tem mais o respeito que a população acreditava que ela merecia. O ato é, praticamente, uma forma de pressionar para que ocorra a renuncia.

Sul coreanos marcham, com velas, em direção à casa presidencial durante um protesto contra a presidente Park GeunHye. Foto: Reprodução (Jeon HeonKyun / Reuters)

Sul coreanos marcham, com velas, em direção à casa presidencial durante um protesto contra a presidente Park GeunHye. Foto: Reprodução (Jeon HeonKyun / Reuters)

No dia 12/11/2016 Seul registrou o maior protesto conta GeunHye, até agora. De acordo com organizadores, cerca de 850 mil a 1 milhão de pessoas (2% da população) se uniram ao protesto à luz de velas, que ocorreu em Gwanghwamun e em uma praça pública próxima à Prefeitura de Seul. Depois, os protestantes seguiram marchando até o complexo da Casa Azul. Essa última parte do protesto havia sido proibida por razões de segurança, mas assegurada graças à corte local. De acordo com a Yonhap, durante a marcha, os participantes entraram em pequenos conflitos contra a polícia e, ao menos sete pessoas foram levadas a hospitais.

Esse protesto, que é o maior da história moderna de Seul, foi organizado por três partidos oposicionistas e por vários grupos civis de esquerda. Choi MiAe disse durante o protesto: “Se a presidente Park continuar a ignorar as ordens e exigências do povo, o Partido Democrata [do qual MiAe é presidente] vai organizar uma campanha para destituir a administração de Park.”

Se Park ceder à oposição, ela vai se tornar a primeira presidente sul-coreana a não terminar o mandato, que no país é de cinco anos.

Confira um vídeo do protesto:

 

PEDIDO DE DESCULPAS E A VERSÃO DE CHOI

 

Park GeunHye pede desculpas à nação. Foto: Reprodução (CNN)

Park GeunHye pede desculpas à nação. Foto: Reprodução (CNN)

A Presidente foi à televisão para se desculpar, duas vezes, em duas semanas. Segundo ela, Choi foi uma amiga que a ajudou durante um “período difícil” e continuou dizendo: “Tudo isso que aconteceu é culpa minha. Aconteceu por causa de minha negligência. Existem até mesmo conversas de que eu estou em um culto ou que estou recorrendo ao xamanismo. Eu gostaria de dizer que isso não é verdade.” Após a prisão de Choi, ela disse: “Eu já instruí à Secretaria de Segurança da Casa Azul para cooperar completamente com a investigação da promotoria. Se for necessário, eu também estou pronta para cooperar.”

Choi, por sua vez, assumiu ter recebido documentos presidenciais secretos, mas negou ter se envolvido em assuntos nacionais, incluindo, até mesmo, assuntos relacionados à Coreia do Norte. Ela negou estar envolvida com as fundações sem fins lucrativos – Mir e K-Sports – e disse: “O pedido de desculpas da Presidente Park quebrou meu coração. Ela só pensa na Coreia e é uma grande pessoa. Eu estou devastada e sinto muito que a presidente esteja sendo tão criticada por minha culpa.” Ela continuou falando que editava os discursos da Presidente “como uma amiga de longo tempo” e que “acreditava que podia ajudar a Presidente a expressar melhor os seus sentimentos”. “Eu não achei que eu me tornaria um problema tão grande, nem mesmo que os documentos eram secretos. Se eu soubesse, eu nunca teria os tocado”, e ela continua. “Eu vivo em solidão e só tive contato com um número limitado de pessoas. Por que todos estão tentando me conectar a eles?” e continuou negando ter recebido dinheiro de corporações.

 

A PRISÃO DE CHOI

Choi SoonSil (no centro) envolta pela mídia e por protestantes durante sua chegada no escritório da promotoria em Seul. Foto: Reprodução (Kim HongJi/Reuters)

Choi SoonSil (no centro) envolta pela mídia e por protestantes durante sua chegada no escritório da promotoria em Seul. Foto: Reprodução (Kim HongJi/Reuters)

Para justificar a prisão preventiva de SoonSil, um representante oficial da promotoria disse à Yonhap: “Existe a possibilidade de que Choi tenha tentando destruir evidências, enquanto negava todas as alegações. Ela já fugiu para o exterior no passado e não tem endereço permanente no país.” Ele continuou: “Ela está em um estado psicológico extremamente instável e é possível que um evento inesperado aconteça, caso ela seja solta.” De acordo com notícias, ela voltou da Alemanha no domingo para se entregar à promotoria. Aparentemente, ela pediu por perdão aos promotores.

 

Para atualizações sobre o caso, continue acessando o SarangInGayo.

 

 

Texto: Maria Carolina Viana
Fontes: Korea Times, CNN, IB Times, Wikipédia, Quartz, Huffington Post, RT.

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