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[Especial] #GarotasNoPoder: O Feminismo e o Sexismo na Coreia do Sul 0

Feminismo

Como parte esmagadora das culturas asiáticas que preservam tradições milenares – e alguns conceitos considerados retrógrados e até ultrapassados após tantas revoluções da sociedade moderna – a sociedade sul-coreana gira em torno do patriarcado. Vemos exemplos do Sexismo em vários lugares, até mesmo dentro do mundo da música e dos dramas. Mas isso não significa que não exista um movimento Feminista que procura reverter essa situação. O problema é: o Sexismo é inerente à cultura coreana.

Vamos começar dizendo que o Sexismo afeta a todos, independente do gênero. Sim, ele afeta as mulheres numa escala muito maior, mas também afeta os homens. É importante lembrar que o Feminismo é baseado no conceito de IGUALDADE DOS SEXOS e defende os direitos das mulheres como forma de alcançar esse objetivo. Não é um movimento de propagação de ódio ao gênero masculino, como muitos pensam de forma de equivocada, mas de reconhecer a mulher como um indivíduo de igual capacidade, talento, força e inteligência. Não estamos aqui para dar uma aula profunda e histórica sobre o Movimento Feminista (apesar de  encorajamos a procurarem sobre o tema de forma mais didática), apesar de ser importante explicar esses conceitos básicos. Mas antes de começarmos com toda nossa história, vamos dar alguns exemplos de como o sexismo afeta a vida das mulheres coreanas.

A atriz Choi JinSil. A esquerda em uma foto de publicidade e a direita internada após apanhar do marido

A atriz Choi JinSil. À esquerda em uma foto de publicidade e à direita internada após apanhar do marido

Choi JinSil, conhecida como a “atriz da nação”, cujo suicídio levou até a um aumento na taxa de suicídios no país. O Machismo foi uma das razões que levou a tragédia com a atriz mais querida e popular na nação na época.

Choi se casou com Cho SungMin, jogador profissional de basebol, e teve dois filhos com ele antes de assumir, publicamente, ser vítima de violência doméstica. Ela, numa sociedade patriarcal e machista, teve a coragem de assumir e publicar fotos com seu rosto roxo, inchado e cansado pelas brigas de custódia de seus filhos no tribunal. Para manter a guarda de seus filhos longe de seu violento marido, Choi  precisou abdicar das acusações que apresentou contra ele. O homem que a espancou saiu livre, para que ela pudesse ter o direito de cuidar de seus filhos.  Além disso, a agência para a qual ela trabalhava na época decidiu processá-la por não ter mantido a “decência” ao expor tudo ao público. Na primeira instância, Choi ganhou o processo. Mas a Suprema Corte decidiu que ela falhou em manter a “honra social e moral”. Em 2007, ela tirou a própria vida.

O caso de Choi trouxe um avanço:  a lei que impedia que os filhos tivessem o sobrenome da mãe. Em 2008, um ano depois do suicídio de Choi, a lei foi alterada e seus filhos mudaram, finalmente, seus nomes no registro de Cho para Choi.

Exemplos de violência doméstica são incontáveis. O comediante Seo SeWon, flagrado por uma câmera de segurança arrastando a esposa pelos pés e até mesmo Kim HyunJoong, acusado de bater em sua namorada repetidas vezes. Nós vemos casos como enredos de videoclipes.

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Cena do clipe “Go Away”, do grupo feminino 2NE1.

 

Nosso próximo exemplo parece banal: mulheres e homens têm seu lugar na sociedade e, geralmente, não ousam mudar isso. Homens não podem demonstrar sensibilidade. Eles têm que preservar seu “papel de homem”, para prover e apoiar a fragilidade feminina. Um homem que deseja seguir uma profissão como cabeleireiro, professor de pré-escola ou enfermeiro está “desonrando” sua masculinidade. Uma mulher que não é sensível, não é “maternal”, não se encaixa no papel de “dona de casa, mãe, cuidadora”, não é normal. Apesar de ser algo visto por todo o mundo, essas são ideias pregadas com muita força na Coreia do Sul, em discursos pessoais, roteiros e brincadeiras de dramas e programas de entretenimento.

A Coreia ocupa a 111ª posição no ranking de igualdade de gênero, dentre 136 países, de acordo com o Fórum Internacional de Economia, sendo o único país desenvolvido em uma posição tão baixa. Não só isso, a Coreia tem a maior disparidade – levando em conta os países desenvolvidos – entre salários de homens e mulheres.  Esses são dados preocupantes.

O sexismo coreano pode ser traçado desde o período em que o confucionismo chinês chegou no país, durante a dinastia Joseon. Na dinastia anterior, chamada Goryeo, as mulheres tinham plenos direitos – melhores do que hoje, de acordo com historiadores. Não existia uma preferência por herdeiros: as mulheres podiam casar novamente caso seu esposo tivesse falecido, ter seus próprios bens, serem líderes de clãs e era mais comum que o homem mudasse para a casa de sua esposa, do que o contrário.

O Feminismo na Coreia começou a se organizar a partir nos anos 1980, antes da democratização que ocorreu em 1987. Nesse primeiro momento, ele era apenas parte de movimentos sociais mais amplos. Era a época do “milagre econômico” e as mulheres começaram a se unir para organizar seu trabalho, lutar contra abusos cometidos e pelos direitos trabalhistas básicos. O período político da época dava pouco espaço público para os movimentos feministas. Apesar disso, três grupos feministas se destacaram: o Movimento de Direitos Humanos das Mulheres (criado nas igrejas), o Movimento do Trabalho Feminino e o Movimento das Mulheres Intelectuais, criado nas faculdades.

Imagem de um protesto pela democratização da Coreia, o berço do feminismo no país.

Imagem de um protesto pela democratização da Coreia, o berço do feminismo no país.

A primeira tentativa de formar um grupo independente e exclusivamente feminista veio com a criação do Mulheres para a Igualdade e Paz, em 1983, que consistia de vários grupos feministas formados recentemente. Os princípios da organização levaram a conflitos entre os grupos de diferentes perspectivas. Sua principal ideia era transformar a estrutura social através da mudança da cultura discriminatória, da igualdade de gênero e da unificação da Coreia do Norte e do Sul.

Os grupos feministas coreanos eram bastante diversos na época, visto que a maioria surgiu a partir de movimentos sociais e laborais. Hoje, a diferença permanece: eles se diferem em tamanho, método, ideologia. Existem desde comunidades online, até grupos que buscam formas alternativas de criação dos filhos. Os grupos, atualmente, se distinguem dos grupos “progressistas” e “conservadores” que existiam antes, mas se dividem entre “radicais” e “reformistas”, e sua luta não mudou muito.

Os grupos “reformistas” se concentram em mudar a posição da mulher na sociedade coreana, seguindo mais o feminismo ocidental. Elas se utilizam da capacidade de influenciar e da possibilidade de criarem projetos de lei para atingir seus objetivos. Os grupos foram fundados no século XX em sua maioria, entre 1920 e 1960 e conseguiram significativas mudanças. Em 1988 elas conseguiram que o Ato de Oportunidades Iguais de Trabalho fosse aprovado, ato esse que trouxe uma igualdade em questão de posição no trabalho, promoções, aposentadoria, treinamento e segurança em questão de maternidade. Em 1991 conseguiram mudar a Lei da Família, que antes dizia que os filhos ficavam, obrigatoriamente, com o pai em caso de divórcio. Com os esforços dos grupos “reformistas”, as crianças podem ficar tanto com o pai, quanto com a mãe.

Manifestante com a frase "não toque" escrita no busto vista na primeira Marcha das Vadias de Busan, 2011

Manifestante com a frase “não toque” escrita no busto. Vista na primeira Marcha das Vadias de Busan, 2011

Os grupos “radicais” se focam em direitos humanos, numa forma mais abrangente e são mais recentes, sendo que a maioria surgiu nos anos 1980. Eles abordam temas como a reunificação das Coreias e a prevenção de tortura de prisioneiros. O termo “radical” pode ser mais ligado ao método que eles utilizam para conseguir seus objetivos, como greves, marchas e protestos. Além dos dois opostos, existem grupos neutros, como a Liga Coreana das Mulheres Votantes, que procura incentivar o voto feminino no país.

Outra forma de dividir os grupos é por suas ideias. As “socialistas” se focam nos efeitos do patriarcado e dos problemas de gênero que afetam as mulheres, e têm grande influência nos estudos feministas no país. Em contraste, as “marxistas” se focam em questões de classe. Ambos se uniram para formar o Centro de Cultura Alternativa e Pesquisa de Estudos Feministas.

Não importando a divisão, a que ideia sigam ou seus métodos e preocupações. As feministas já conseguiram grandes avanços para a mulher coreana, dentro da própria casa, do trabalho, da família. Sem eles, não veríamos grupos femininos com linguagem corporal e letras que demonstram o poder feminino, não veríamos aquelas personagens poderosas em dramas, ou sequer a Coreia teria uma mulher como presidente.

The Korean Women's Association United attend a flash mob for International Women's Day

A semana Garotas No Poder do SarangInGayo é uma serie em homenagem ao 08/03, Dia Internacional da Mulher, e traz matérias especiais de empoderamento feminino. O SarangInGayo reforça o seu compromisso de entreter e informar baseado em princípios de igualdade e o respeito ao próximo, sem preconceitos de nenhuma espécie.

Texto escrito por Maria Carolina com informações de Wikipedia, Mocky Chick e do livro “A Development of the “Jinbo” Women’s Movement in Korea Since the 1980” de Shin KiYoung.
Por favor, não retirar do SarangInGayo sem os devidos créditos. 

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